A imagem corporal é um complexo fenômeno humano que envolve aspectos cognitivos, afetivos, sociais/culturais e motores. Está intrinsecamente associada com o conceito de si próprio e é influenciável pelas dinâmicas interações entre o ser e o meio em que vive. O seu processo de construção/desenvolvimento está associado, nas diversas fases da existência humana, às concepções determinantes da cultura e sociedade.
A busca de uma imagem corporal, adequada aos anseios estereotipados de corpo, é um dos fenômenos mais impressionantes na sociedade atual; existe uma grande influência cultural sobre a cultura e imagem do corpo, o que pode criar aspectos enviesados relacionados ao universo corporal. Neste contexto, foram criados "modelos" de referência quase inatingíveis, pois o corpo "vendido" passa distante da realidade da maioria. E assim, assumem-se excessos, são criadas frustrações e quase "cyborgs".
Esses aspectos sociais/culturais dos seres humanos, é variável de acordo com etnia, idade, nível social, história, sociedades, culturas e infinitos outros grupos, podendo-se considerar também o nível individual. Hoje, porém, a beleza corporal está muito vinculada a padrões de mercadoria, onde existe uma verdadeira maquinaria cultural de vendas de corpos, adornos e elementos relacionados a ele. Desta forma, a crescente comercialização do corpo, tão incutida na cultura atual, produziu um paradoxo entre a beleza corporal e o artificial. Tal paradoxo aderiu suavemente à imagem corporal, relacionando-a a um padrão corporal pré-definido como referência de saúde, qualidade de vida e beleza. A celebração corporal atual pode fazer com que o indivíduo se afaste da própria subjetividade, modelo e vivência corporal, chegando ao ponto extremo de ocasionar-lhe um processo de alienação e de construção de uma consciência acrítica em relação a sua percepção corporal e a hábitos de vida. Como conseqüência, o indivíduo pode desconhecer meios que poderiam ajudá-lo a sair dessa realidade ou não ser capaz de concretizar tais meios, hipertrofiando essa condição de vida não emancipada, tão arraigada na sociedade. Vive-se o culto ao corpo extremo determinado; é criada a angústia interna vivenciada; aceitam-se os "fantons" de referência pública.
Estudiosos da imagem corporal observam que a insatisfação com a própria imagem pode ser conseqüência de mensagens e apelos de determinadas sub-culturas, e "mesmo que a cultura dominante não prescreva que o homem seja avaliado através de padrões estéticos, ele poderá estar recebendo informações diferentes desta em suas comunidades, muitas vezes sendo pressionado a ser musculoso, ou até mesmo parecido com os demais"
Os autores dão uma importância global a essa educação:
O homem é incapaz de resolver as mais graves questões universais da atualidade porque elas lhe escapam à inteligência. Falta-nos a sensibilidade educada; faltam-nos as emoções educadas, a sexualidade, a motricidade e a sociabilidade educadas. (p.134)
Por tudo isso, parece que a aderência dos resíduos provenientes do atual sistema apresenta-se como fator limitante à conscientização e crítica comportamental, inibindo ações transformadoras, principalmente no que diz respeito às várias aspirações materialistas. E assim sendo, a visão cada vez menos reflexiva daquilo que chega a população parece fazer parte de uma unicidade de caminho "necessária" à satisfação humana, tão incutida socialmente e culturalmente. Parece que o empirismo (o conhecer através dos sentidos) acaba por anexar-se dramaticamente na relação do homem com os questionamentos fisiológicos, sociológicos e intrínseco-pessoais.
Resumindo, é preciso que haja uma educação social, psicológica, fisiológica, anatômica e motriz, para que as pessoas entendam que não somos apenas um corpo/imagem; somos muito...muito mais que isso.
Karine A. M. Xavier
25/04/10
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