domingo, 25 de abril de 2010

Percepção corporal

A imagem corporal é um complexo fenômeno humano que envolve aspectos cognitivos, afetivos, sociais/culturais e motores. Está intrinsecamente associada com o conceito de si próprio e é influenciável pelas dinâmicas interações entre o ser e o meio em que vive. O seu processo de construção/desenvolvimento está associado, nas diversas fases da existência humana, às concepções determinantes da cultura e sociedade.
A busca de uma imagem corporal, adequada aos anseios estereotipados de corpo, é um dos fenômenos mais impressionantes na sociedade atual; existe uma grande influência cultural sobre a cultura e imagem do corpo, o que pode criar aspectos enviesados relacionados ao universo corporal. Neste contexto, foram criados "modelos" de referência quase inatingíveis, pois o corpo "vendido" passa distante da realidade da maioria. E assim, assumem-se excessos, são criadas frustrações e quase "cyborgs".
Esses aspectos sociais/culturais dos seres humanos,  é variável de acordo com etnia, idade, nível social, história, sociedades, culturas e infinitos outros grupos, podendo-se considerar também o nível individual. Hoje, porém, a beleza corporal está muito vinculada a padrões de mercadoria, onde existe uma verdadeira maquinaria cultural de vendas de corpos, adornos e elementos relacionados a ele. Desta forma, a crescente comercialização do corpo, tão incutida na cultura atual, produziu um paradoxo entre a beleza corporal e o artificial. Tal paradoxo aderiu suavemente à imagem corporal, relacionando-a a um padrão corporal pré-definido como referência de saúde, qualidade de vida e beleza. A celebração corporal atual pode fazer com que o indivíduo se afaste da própria subjetividade, modelo e vivência corporal, chegando ao ponto extremo de ocasionar-lhe um processo de alienação e de construção de uma consciência acrítica em relação a sua percepção corporal e a hábitos de vida. Como conseqüência, o indivíduo pode desconhecer meios que poderiam ajudá-lo a sair dessa realidade ou não ser capaz de concretizar tais meios, hipertrofiando essa condição de vida não emancipada, tão arraigada na sociedade. Vive-se o culto ao corpo extremo determinado; é criada a angústia interna vivenciada; aceitam-se os "fantons" de referência pública.
Estudiosos da imagem corporal observam que a insatisfação com a própria imagem pode ser conseqüência de mensagens e apelos de determinadas sub-culturas, e "mesmo que a cultura dominante não prescreva que o homem seja avaliado através de padrões estéticos, ele poderá estar recebendo informações diferentes desta em suas comunidades, muitas vezes sendo pressionado a ser musculoso, ou até mesmo parecido com os demais"
Os autores dão uma importância global a essa educação:
O homem é incapaz de resolver as mais graves questões universais da atualidade porque elas lhe escapam à inteligência. Falta-nos a sensibilidade educada; faltam-nos as emoções educadas, a sexualidade, a motricidade e a sociabilidade educadas. (p.134)

Por tudo isso, parece que a aderência dos resíduos provenientes do atual sistema apresenta-se como fator limitante à conscientização e crítica comportamental, inibindo ações transformadoras, principalmente no que diz respeito às várias aspirações materialistas. E assim sendo, a visão cada vez menos reflexiva daquilo que chega a população parece fazer parte de uma unicidade de caminho "necessária" à satisfação humana, tão incutida socialmente e culturalmente. Parece que o empirismo (o conhecer através dos sentidos) acaba por anexar-se dramaticamente na relação do homem com os questionamentos fisiológicos, sociológicos e intrínseco-pessoais.
Resumindo, é preciso que haja uma educação social, psicológica, fisiológica, anatômica e motriz, para que  as  pessoas entendam que não somos apenas um corpo/imagem; somos muito...muito mais que isso.

Karine A. M. Xavier
25/04/10

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Escolaridade revela conduta na prática de atividades físicas


   
O comportamento de uma pessoa em relação à prática de atividades físicas está diretamente associado à sua situação socioeconômica. As pessoas com mais anos de estudo  são as que mais praticam atividades físicas de lazer. O assunto foi estudado pela professora e educadora física Evelyn Fabiana Costa em seu mestrado intitulado Prática de atividade física e sua relação com escolaridade em adultos de Ermelino Matarazzo, Zona Leste de São Paulo.
Evelyn esclarece que atividade física é qualquer gasto de energia além do gasto energético basal (aquele usado para manter o organismo vivo). Já o exercício físico é estruturado e tem objetivo definido, periodicidade e sequência. Ambos são fatores para prevenção e tratamento de doenças crônicas, com hipertensão, diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer, depressão, ansiedade, entre outros.
A pesquisa, realizada entre 2007 e 2009, na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, estava inserida dentro de uma pesquisa maior que avaliou a prática de atividades físicas em relação ao ambiente. Dela saíram várias pesquisas menores, como avaliação da fluência verbal de idosos, qualidade do sono, entre outras. “Utilizamos um questionário internacional, o IPAQ. Ele estabelece que, para o indivíduo se beneficiar da prática de atividade física, precisa praticar cerca de 30 minutos de atividades moderadas por dia, pelo menos 5 dias por semana, ou 20 minutos de atividades vigorosas, 3 vezes por semana. Se a pessoa pratica esse mínimo de atividades, convenciona-se que ela está, teoricamente, protegida do risco de doenças crônicas”, esclarece Evelyn.
A atividade física foi avaliada de forma fragmentada, utilizando quatro domínios: atividade física no lazer, no trabalho, no ambiente doméstico e de locomoção e deslocamento. O objetivo foi associar cada domínio com o nível sócioeconômico dos entrevistados.
Em estudos anteriores, Evelyn observou que o nível socioeconômico de um grupo era medido de três maneiras: pela ocupação profissional, pela renda, e pela escolaridade. “Escolhemos a escolaridade porque é o mais confiável dos três indicadores. Uma pessoa com escolaridade maior, possivelmente tem uma renda maior, um emprego melhor e, provavelmente, tem mais acesso a informações de cuidados com a saúde”, explica.
Os pesquisadores entrevistaram 385 idosos e 505 adultos no distrito de Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo, que é uma região de nível sócioeconômico baixo. “As entrevistas duraram cerca de 6 meses, nas quais aplicamos o questionário em postos de saúde e em alguns domicílios. Então avaliamos qual seria o impacto do nível de escolaridade do entrevistado dentro de cada um dos quatro domínios de atividade física”, explica Evelyn.
Resultados já esperados

Os resultados mostraram que a prática de atividade física no ambiente doméstico representou a maior proporção de pessoas fisicamente ativas, com 44,8% dos entrevistados, seguido das atividades realizadas como forma de locomoção e deslocamento, com 37,6%. As pessoas ativas na prática de atividades físicas de lazer, que é onde os governos concentram os esforços com políticas públicas de saúde e prevenção, representaram apenas 16% dos entrevistados.

Nas comparações por gênero, os homens foram mais ativos no lazer e no trabalho. Já as mulheres foram mais ativas nas atividades físicas domésticas.
Conclusões

Evelyn observou algumas associações positivas. Independentemente do sexo, quanto maior a escolaridade, maior a pratica mais atividades físicas de lazer, o que reflete o nível socioeconômico da pessoa. Homens mais escolarizados (acima de 12 anos de estudo) são menos ativos em atividades de locomoção do que os menos escolarizados (0 a 3 anos de estudo). E mulheres mais escolarizadas são menos ativas nas atividades domésticas que as menos escolarizadas.

“Os resultados mostram a necessidade de políticas públicas para incentivar a prática de atividades físicas de lazer na população de menor nivel socioeconômico, como a construção de praças, parques, etc., principalmente em regiões menos favorecidas, como é o caso do distrito de Ermelino Matarazzo”, analisa a pesquisadora.
A pesquisa teve o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Texto: Paulo Roberto Andrade
Fonte: Agência USP

Publicado em: 26/02/2010